Slhueta de costas, mostrando longas pernas, calçando sapatos de salto, ao lado de uma placa onde se lê "Mar Doce Lar"

(Des)Complicando a Tia

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Ou não?

“Mar, é lógico para nós que acompanhamos sua produção de texto há tempos que ao mesmo tempo em que expõe esses conceitos tão importantes, você também está desconstruindo ou reconstruindo sua própria identidade. Você podia dar uma resumida, não?”

É, talvez seja um bom momento… Mas façamos uma coisa. Vou deixar você começar, perguntando…

“Ok! À queima-roupa: Mar, você é mulher?”

É uma pergunta que não tem resposta simples, então vamos por partes, como diria o esquartejador…

Nossa sociedade (de origem europeia) é fruto de milênios de construção social e linguística em termos de um binário de gênero.

Para nós a norma é qualificar as pessoas em homens e mulheres somente, baseando-se em rápida inspeção visual do aparelho reprodutor externo, algo que no máximo, pode definir como aquele humano em particular poderá potencialmente contribuir com a reprodução e perpetuação da espécie.

Assim, quase tudo – chegando ao absurdo – é associado aos dois gêneros ditos válidos como “de homem” ou “de mulher”!

Neste sentido, pessoas não binárias, como eu, tem que viver em um mundo organizado para os dois gêneros.

É inevitável nos identificarmos com alguns signos, símbolos e expressões deles. Também é comum – mas não é regra – nos afastarmos ou sentirmos necessidade de nos afastar dos signos, símbolos, expressões e comportamentos do gênero que nos tentaram impor.

Eu me identifico e vivencio bem mais certos signos, expressões, percepções, modos de pensar e sentir, que são entendidos como pertencentes às mulheridades.

Então, respondendo, embora me defina como Pessoa Não Binária, ao me reconhecer transfeminina, posso sim ser incluída na categoria “mulher”.

Ou, simplesmente: sim.

“Nossa! Que contextualização! E por falar nisso, porque você usa ‘Tia’?”

Ah! Boa pergunta…

A maioria das pessoas acha – ou deve achar – que tem algo a ver com a tradição das crianças (e pais) de chamarem as professoras assim. Mas não é por isso.

Aliás, nem gosto muito dessa utilização, mas é uma associação esperada.

Não, já ministrei aulas, mas sou a Tia, porque de forma geral tendo a ser uma das, ou a pessoa de mais idade na maioria (não todos) dos meus círculos sociais, historicamente. Como ainda não tenho netos, Tia funciona bem.

“Hummm… E essa história de não monogamia?”

Olha… Essa eu vou ficar te devendo, algumas pessoas me pediram um “A Tia Explica” sobre isso.

“Ah, claro! Já batendo ansiedade para ler… Acho que é o que eu tinha para perguntar, por enquanto…”

Então, não sei se descomplicou ou complicou de vez.

Mas sabe? Não sou mais complicada que ninguém.

Nenhuma pessoa trans o é.

Queremos e precisamos das exatas mesmas coisas que todas as outras pessoas vivas no planeta.

Aquelas mesmas coisas que existem nesta declaração e nos pactos internacionais dela derivados e dos quais a maioria dos países, incluindo este País das Maravilhas, são signatários.

Seremos complicadas apenas enquanto certas pessoas resolverem relativizar os direitos universais descritos naqueles documentos.

E também enquanto certas pessoas se preocuparem mais com a vida dos outros, que com a própria.

Ou políticos acharem que precisam definir alguma minoria como o “inimigo”, em vez de criar propostas reais e factíveis…

E como nota final, lembro que somos o país que mais consome pornografia de travestis/mulheres trans e também o país que mais mata pessoas trans.

Precisamos mudar isso, ser o país acolhedor que fingimos ser na propaganda de turismo…