Slhueta de costas, mostrando longas pernas, calçando sapatos de salto, ao lado de uma placa onde se lê "Mar Doce Lar"

Nomes, pronomes e tudo mais

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Aquele famoso post de “saída de armário”

Saída de armário, Mar? Mas já tem uns quatro anos que você escreve abertamente sobre isso, em sites e blogs variados. E uns três que seus perfis em redes sociais também são abertos quanto à identidade de gênero e militância. Afora mais de ano no trabalho.”

Pois é, padawan, só que eu percebi que todo esse tempo, escrevi indiretamente e jamais tudo em um único lugar. São pequenas passagens, inclusões e identificações, mas não “o post”.

Entendi. É bem comum, em tempos de redes sociais prevalentes, esse tipo de post, não é?

Sim. Alcança muitas pessoas de uma vez, inclusive aquelas com quem a gente gostaria de falar pessoalmente mas não é possível, e informa tudo o que é válido ou deixou de ser sobre nós, de forma coesa e coerente (assim a gente espera!).

Encaro meio como um manual de instruções versando sobre o básico de como lidar com a pessoa que está revelando sua verdade, seu eu. E pedindo que os outros deixem de seguir o fluxo determinado pelas expectativas sociais, os pré-conceitos e predefinições, no trato com ela.

Além disso, é um desabafo. Nunca fiz isso. Então, vamos?

Vocês podem ter me conhecido por outro nome, que meus pais escolheram e que por enquanto, ainda está em minha certidão de nascimento e portanto em meus documentos oficiais.

Mas Mar é meu nome real, que exprime melhor quem sou, e mesmo que não esteja — ainda — em meus documentos, é por ele que prefiro que me tratem.

Sou pessoa não binária transfeminina.
Isso significa que nunca pertenci ao gênero que designaram e que minha certidão e por consequência, meu sexo jurídico indicam. No entanto, não existe no nosso ordenamento jurídico nada além dos dois sexos. Mudar isso é uma luta que está sendo travada — e vencida em alguns países — mundo afora, mas hoje em dia ainda não há uma situação positiva para pessoas não binárias. Isso significa para nós, buscar o “menos pior” (se possível).

Costumo me referir a mim da forma mais neutra possível, mas mais uma vez, como não temos neutro em português (ou antes, o neutro é convenientemente, masculino), acabo fazendo minhas concordâncias e por conseguinte, usando os pronomes femininos (sou uma pessoa, não sou?). Como tenho, neste mundo binário, mais identificação com expressões e vivências ditas femininas, me atende.

Mas sintam-se livres para usar o feminino, sempre que forem escrever sobre ou para mim (“Miga, sua louca. Cadê você?“, “Mana, não acho isso”, “Tia Mar está de aniversário” , “A colega Mar”— exemplos reais)

Mas eu não cobro de ninguém que use este ou aquele pronome, no cotidiano. Sabe o que é incômodo — gatilho de disforia? É o enquadramento em estereótipos de gênero, principalmente de meu gênero designado. É melhor me tratar 100% do tempo com pronomes masculinos do que me enquadrar como “homem” (“vocês são assim“). Não adianta também inverter a história, estereotipar pessoas nunca é bom.

Dito isso, espero que se vocês se me virem claramente performando feminilidades, me tratem de acordo. E isso não requer que eu esteja em “drag” ou com make óbvia e vestido, por exemplo. Há pessoas que convivem comigo que, mesmo só me vendo em minha mais usual expressão “neutra”, percebem e reagem corretamente a meus momentos.

Carinho no trato com o outro e boa vontade fazem milagres. Experimentem

Eu sei que para muita gente, é complicado acompanhar as necessidades de pessoas trans binárias, que dirá das não binárias. Mas é só lembrar que todas as pessoas têm direito à serem respeitadas — imperativo básico da vida em sociedade.

Outra coisa muito importante é que, você que é pessoa cisgênera, está em vantagem (privilégio), você está e estará confortável por toda a vida com seu nome, pronome e até estereótipos.
Já a pessoa trans que vem a público em um texto como esse, passou toda a vida desconfortável, sofrendo, de formas que não são sequer imagináveis para quem não é trans.

Ou seja, nem pensar em dizer que você fica desconfortável com usar pronomes ou nomes diferentes. Não é sobre você.

É caso de usar de empatia

Vou fazer o advogado do diabo: Ah, mas acho que isso de não se aceitar é besteira. E eu que sei como é estranho isso de chamar dessa forma!

Achismos sobre a vida alheia não ajudam a ninguém, e provavelmente, se acontecer com você, sua tendência será usar da frase popular acerca de “não pagarem suas contas”. E empatia não tem nada a ver com o que você acha.
É, no caso, saber que aquela pessoa tem emoções próprias, vida própria, e sofrimento próprio. Reconhecer isso, e agir de forma a não ser parte ou razão deste sofrimento. Afinal, a maioria de nós não quer fazer ninguém sofrer, conscientemente…

E não tem jeito.

Deveria ter sido um texto extremamente pessoal, e não deixou de ser, mas sempre acabo traçando pontes com as vidas e vivências de outras pessoas.

Essa sou eu.